Advento – Natal

As primeiras pessoas que visitam o menino deitado em comedouro de vaca são os pastores de ovelhas. Não os donos das ovelhas, mas os empregados sem carteira assinada, sem plano de saúde, sem indenização, sem aposentadoria, sem dentes na boca e, sobretudo, vistos como IMPUROS.

Impuros, não no sentido da higiene, mas impuros para o culto, para o templo, para se aproximarem de Deus, para conviverem na sociedade. É porque o sistema precisa declarar impuras algumas pessoas, para explorá-las como mão de obra barata. Esses pastores são os primeiros que são acolhidos na presença do menino. Mais tarde, quando o menino, já feito homem, começa sua missão, ele visita pessoas que sofrem de várias doenças: Endemoninhados, epilépticos e paralíticos. Recebe cegos, coxos, surdos e pessoas cheias de perguntas. Vai em busca dos que se perderam. Tem carinho por todas as pessoas, mas cultiva empatia preferencial por aquelas que mais precisam de ajuda.

Em sociedade dividida como a brasileira, a Vontade de Deus, nascida na estrebaria, vai de preferência na direção das pessoas qualificadas como “maus elementos”, preguiçosas e culpadas da sua própria miséria (as pessoas “impuras” do nossos dias). ELE tem interesse especial pelas pessoas doentes que necessitam do Projeto Mais Médicos; pelas pessoas banguelas que necessitam do Projeto Brasil Sorridente; pelas Marias Madalenas dos nossos dias, endemoninhadas que necessitam do Valium de preço reduzido; ELE vai às pessoas que necessitam das cotas para estudar; ELE multiplica cinco pães e dois peixes para pessoas necessitadas de Bolsa Família; ELE dedica amor especial às pessoas que o deputado Luís Carlos Heinze considera “o que há de pior no Brasil”; ELE credita méritos às pessoas que o deputado e o sistema da sociedade dividida considera sem méritos.

Para a minha salvação pessoal, Deus já fez o suficiente. Não preciso acrescentar nadica de nada. ELE salvou-me e salva-me por graça somente, quando creio.

Mas engajar-me para o bem estar de todas as pessoas necessitadas, essa é minha tarefa, caso eu queira acolher a Vontade de Deus, caso eu queira segui-lo, a ELE que vai ao encontro das pessoas mais carentes e cura-as.

E para essa tarefa, ele me libertou de mim mesmo: Uma vez que já me aceitou de graça e já me salvou, não mais preciso salvar a mim mesmo, através dos meus méritos, e tenho as mãos livres para outros.

Assim sendo, a vinda da Vontade de Deus, revelada no menino deitado em comedouro de vacas, mostra-se como grande cutucada no sistema que insiste em dividir a sociedade em pessoas ganhadoras e perdedoras, lembradas e esquecidas, privilegiadas e descartadas, em centro e periferia, condominiados e favelados, em famílias de bem e maus elementos, em profissionais empanturrados de privilégios e pessoas que os privilegiados exploram! Há muitas formas de quebrar essa ponta aguda, essa ponta revolucionária da mensagem natalina (revolucionário no sentido de mudar a sociedade dividida):

Vou observar-me e ver meus próprios malabarismos intelectuais, teológicos, políticos, espirituais, filosóficos, morais que invento para quebrar o aspecto revolucionário da mensagem que a Vontade de Deus, revelada em Belém, encerra

(Advento 2014).

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