Luzes de Natal

Olá, prezado amigo e colega Derval Basilio. Tu me pediste que eu falasse uma palavra sobre o Natal daqui da Alemanha. Posso dizer-te que tem muitas coisas bonitas acontecendo: Há concertos de compositores renomados, executados por músicos de raro talento; exposições de madonas pintadas pelos “velhos mestres”; feiras de artesanato com símbolos natalinos; celebrações bem elaboradas por pregadores/as hábeis. Mas o que está acontecendo de mais importante é a solidariedade impressionante e surpreendente manifestada aos refugiados, seja por parte dos órgãos públicos, seja por parte de voluntários que surgem do meio da população. Cerca de um milhão de refugiados entraram na Alemanha neste ano. Eles recebem moradia aquecida, alimentação, material de higiene, vacinas, consultas médicas e dentárias e, no ato do registro, a primeira mensalidade de 360 Euros. Quando seu pedido de asilo é concedido, com o direito de ficar, essa quantia aumenta para mais de seiscentos Euros. Enquanto isso, as pessoas voluntárias (alguns hospedam, em suas casas, jovens e adolescentes que vem sozinhos), fazem campanhas de arrecadação de roupas, de calçados, de brinquedos, de panelas, de cadeiras, de mesas, de boinas, de muchilas e de bicicletas. Professores/as aposentados/as dão aulas de alemão; professores de esporte levam jovens para as piscinas públicas aquecidas e ensinam-nos a nadar; donas de casa ensinam mulheres a fazer os tradicionais biscoitos natalinos; jovens brincam com as crianças; torcedores levam grupos para jogos de futebol; aposentados ensinam como viajar de ônibus e de trem. Temos um grupo de refugiados, de 60 pessoas, a cem metros de nossa casa; outro grupo, de trinta mulheres traumatizadas, com suas crianças também traumatizadas, no outro lado de nossa moradia. Alguns jovens, acompanhados de voluntários, vem às dependências de nossa Comunidade Eclesial, para jogos de integração, como mostra a foto. A sociedade alemã redescobre-se em seus valores espirituais, muitas comunidades eclesiais reavivam-se com cursos dos mais diferentes tipos, inclusive de crochê e de culinária. Muitos cristãos redescobrem o que significa a palavra de Jesus: “Fui forasteiro e vocês me acolheram”. Muito é feito daquilo que não foi feito, no Brasil, para as milhões de famílias, expulsas do campo, com a “modernização da agricultura”, nos anos 60 e 70, que sobrecarregaram as administrações municipais; pessoas que foram desprezadas pelas “boas famílias” do centro, recebidas pelo arrocho salarial do Governo Médici e seguintes, acolhidas pelos cassetetes da “ordem estabelecida”, jogadas em cadeias imundas. O povo alemão sabe que pessoas desgarradas e não integradas, rejeitadas e merginalizadas, mais facilmente do que as bem integradas, podem formar sociedades paralelas e cair na criminalidade. Cada pessoa é digna de ser acolhida como PESSOA, antes de ser acolhida como branca ou negra, como homem ou mulher, como cristã ou muçulmana, como hetero ou homo, como sadio, traumatizado ou “endemoninhado”. É um dos artigos da Declaração Universal dos Direitos Humanos. E cada pessoa tem a dignidade inviolável de ser imagem e semelhança de Deus. Acho que essa solidariedade é bem mais importante que todas as luzes natalinas, por exemplo nos EUA, onde as luzes desses dias gastam energia maior do que países pobres gastam durante o ano todo. Pois, o menino que homenageamos no Natal foi, ele mesmo, um refugiado, já aos dois anos de idade, rumo ao Egito, para fugir da fúria do Império Americano (ops, desculpe o lapso), para fugir da fúria de Herodes. A maior parte dos refugiados vem dos países onde os governos norteamericanos levaram sua “liberdade democrática” por meio de bombas lançadas de aviôes ou de drones manipulados a distâncias seguras: Afganistão, Paquistão, Iraque. Mas também vem refugiados da Nigéria e do Congo Belga, onde as potências ocidentais ensinam “liberdade democrática” nas jazidas de petróleo e nas minas de ouro, asim como vieram, em anos passados, os refugiados da Correia, do Vietnam e do Iran, onde os EUA foram fazer guerra, sempre na casa dos outros. Vem também pessoas que fogem dos terroristas do Estado Islâmico, que surgiu dos escombros deixados pelas “guerras limpas” dos exércitos americanos no Oriente Médio. No entanto, a maioria absoluta de refugiados vem da Síria, onde todo mundo bombardeia todo mundo com armas compradas no Ocidente.
Acho comovente a solidariedade com os refugiados, porque vejo nela a luz mais forte entre todas as luzes que brilham nesses dias em nossas cidades e residências. É a melhor homenagem ao filho da menina-mãe, de 15 anos e solteira, de nome Maria e sem teto sobre a cabeça. Ela dá à luz na estrebaria, porque Deus quer que voltemos nossa atenção às pessoas que são tão necessitadas como o menino frágil deitado no comedouro da vaca; menino que é reconhecido como manifestação divina, primeiro, pelos pastores de ovelhas, os peões que guardavam o rebanho ao relento frio e que eram tidos como impuros para o templo; pastores-peões, tidos como indignos para se aproximarem de Deus. O menino que, depois de crescido, vai em busca de doentes de todas as doenças, tais como paralíticos, lunáticos, coxos, cegos, surdos e mudos, endemoninhados (doidos totais), em tempos sem Valium e sem psiquiatras; que vai até Maria Madalena, possuída por sete (número da plenitude), demônios, completamente birrada, quando ainda não havia banheiros públicos, nem sabonetes, nem perfumes e nem champoos, e a atenção que Jesus dá a ela liberta-a e cura-a. Por isso tudo, prezado amigo Derval Basilio, penso que a luz que brilha mais claramente, nesses dias de Alemanha cheia de luzes, é a luz da solidariedade aos refugiados. Feliz Natal.