O Natal e os Excluídos

O Reino de Deus, anunciado pelo filho de Maria, inclue uma plataforma política; um programa político a ser realizado da perspectiva dos excluídos; um projeto político muito difícil de ser realizado em terras brasileiras, porque a história do Brasil está cronicamente doente da síndrome da Casa Grande e da Senzala.

O Reino de Deus tem uma plataforma política pensada a partir dos excluídos e marginalizados, já que a vontade de Deus nasce, não somente criança frágil, mas também criança sem teto, dentro de uma estrebaria. E os primeiros que a reconhecem como representante da vontade de Deus são os sem terras, os peões, os pastores de ovelhas que guardam o rebanho ao relento, em noite fria. Pastores peões, não pastores proprietários, não os donos dos rebanhos.

Os donos das ovelhas estavam bem acomodados, naquela noite fria, em suas casas confortáveis. Empregavam os pastores e exploravam seu trabalho (veja Houtart, em “Modos de Produção na Palestina de Jesus”).

Pastores peões pobres, vistos como impuros, não somente do ponto de vista da higiene, mas também impuros para o culto, impuros para o templo, ou seja, impuros para se aproximarem de Deus; pastores de ovelhas vistos como indignos, enfim, excluídos, marginalizados como os descendentes da Senzala, como os peões dos casebres, nos fundos das fazendas de sesmarias, enxotados pelo êxodo rural, para a exclusão das periferias de nossas cidades ou para as margens das rodovias, e sempre demonizados pela imprensa, desde a Guerra do Contestado, desde o Movimento dos Muckers, desde os Monges do Pinheirinho (no Vale do Taquari,como relata o Correio do Povo daqueles dias), desde os Monges Barbudos de Soledade, os SEMTERRA do MST, todos eles perseguidos, torturados, humilhados, massacrados (46 líderes assassinados neste ano, até novembro, e 79 ameaçados de morte pelos grandes proprietários e seus jagunços contratados).

E os primeiros que o menino, já adulto, visitou, ao iniciar os seus trabalhos (cf.Mateus 4) foram também os excluídos, os lunáticos, paralíticos, coxos, doentes de todas as doenças, também os endemoninhados, em tempos sem Valium e sem psiquiatras, a exemplo de Maria Madalena, “possuída” por sete (número da plenitude) demônios. No Natal nasce um menino com uma plataforma de inclusão social e política, porque veio para todos, mas especialmente para os excluídos.

(Silvio Meincke, Natal de 2015).

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